A educação pública, do ciclo
fundamental ao médio e ao superior, deve ser matéria de soberania e
desenvolvimento nacional, prioridade estratégica da reforma política do sistema
institucional hoje exaurido.
Trata-se de
reencontrar o caminho de uma democracia real, isto é, extensiva a todos e que
favoreça a aptidão de cada um. Novo sistema educacional público, no caso
brasileiro, significa que seja ocupado prioritariamente pelas parcelas mais
carentes da população. E, no entanto, as mais capazes no trabalho, na invenção
de formas de sobrevivência na barbárie, cujas aptidões jamais foram levadas a
sério.
O resto é demagogia
de governos venais, de reitores tíbios e conselhos ineptos, de especialistas da
exclusão. De rigorosos "tribunais de contas" na Suíça. Falsa elite,
portanto, pois não pode haver nenhuma que dispense o compromisso com a
sociedade civil e, especialmente, sua parte mais desfavorecida.
Novo significa:
educação pública, universal e de qualidade igualmente acessível para quem nasça
pobre, seja preto, pardo, indígena ou branco. Sem barreiras. Sem alfândegas.
Para isso, será necessário canalizar muito das energias dispersas das Jornadas
de Junho numa vontade organizada, pois apenas essa pode ser politicamente
eficaz.
Seria necessário,
portanto, mais que 10% do PIB; mais que 9,57% do ICMS que Alckmin-Calabi
respingam como dádiva; mais que inventar um reitor biônico, como Rodas por
Serra. Seria necessário defender e aprofundar a plena autonomia financeira da
universidade pública, sustentada sobretudo pela grandeza de seus objetivos
científicos e sociais.
A pequenez dos que
governam o Estado mais rico e as universidades mais excelentes não surpreende.
Está de acordo com o descaso centenário com a educação pública no país. Basta
ver o que foi feito com as redes públicas dos anos 60 para cá. Crime de
lesa-humanidade. Sucateamento que barrou o acesso dos pobres à educação
superior e desmontou a possibilidade de que houvesse educação de qualidade no
ensino fundamental e médio. Acidente de percurso ou estratégia de exclusão?
Não é acidental que,
na ruína, reine o vestibular, sistema abominável de reprodução da desigualdade,
em nome de uma falsa meritocracia: pois quando todas as desigualdades já foram
cometidas no ensino médio e fundamental, que universalidade de mérito pode
haver no vestibular? Basta de hipocrisia! Ocupação de todas as vagas da
universidade pública, em processo de avaliação contínua, por quem as merece de
direito e de fato: os que estudam nas escolas públicas. A universidade pública
tem de ser compreendida no cerne da escola pública.
Aí, sim, teremos o
fim do sistema perverso, em geral mencionado apenas para torná-lo ainda mais
cruel. Como agora, quando se propõe o ensino pago nas universidades públicas
paulistas, isto é, aumentando a interdição, a pretexto de questões de
"gestão", "princípio", "justiça".
O ensino público
permanecerá sempre aberto a todos. E que todos lutem por uma virada radical na
educação pública, o que começa pelo respeito e valorização do trabalho do
professor, esteio maior de sua qualidade. O fundamental está nisso:
universidade pública para quem não se põe acima do bem público.
________________
FRANCISCO FOOT HARDMAN, 61, e ALCIR PÉCORA, 60, são professores de
literatura da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Publicado no Jornal
folha de São Paulo. Caderno Opinião – Tendências
e Debates. Sexta-feira 19 de junho de 2014.
Nenhum comentário:
Postar um comentário